Ciclovias para quem?

Existe muita confusão quando se fala sobre a construção de novas ciclovias. Um dos maiores erros está na definição do público beneficiado: afinal, ciclovias são para só para os ciclistas?

A grosso modo podemos dizer que quem já pedala não precisa de novas ciclovias. Estas pessoas já estão acostumados com as ruas, já sabem lidar com o trânsito, já aprenderam a contornar os problemas da cidade. Mas mesmo estas pessoas muitas vezes limitam seus trajetos a locais onde se sentem seguras o suficiente para transitar de bicicleta. Ou seja, poderiam ir pedalando a outros lugares se houvesse segurança para isto. É aí que entra uma coisa chamada:

DEMANDA REPRIMIDA

“Se tivesse ciclovia eu até pensaria em ir de bicicleta”. Você já deve ter escutado esta frase, ou qualquer variante dela. Esta é a demanda reprimida do uso da bicicleta. Este comentário recorrente, por si só, já responde a pergunta do título deste artigo. Mas quem a ouve pode pensar que são casos isolados, que são poucas pessoas que pensam assim.

Duas pesquisas diferentes, feitas em 2011, mostram que a demanda reprimida é bem considerável. Na verdade, os números são impressionantes.

A Pesquisa Bici SC, coordenada pela UDESC de Joinville, estimou a demanda em 74%. Isso apenas entre motoristas e usuários de ônibus. Isso significa que a cada 4 pessoas que você conhece que atualmente usam seu carro ou transporte coletivo, 3 utilizariam a bicicleta no seu dia a dia se houvesse estrutura adequada.

Página 19 do relatório com os resultados da pesquisa BiciSC
Página 19 do relatório com os resultados da pesquisa BiciSC

Já o Fórum de Indicadores de Mobilidade Urbana que foi promovido na ALESC pela RBS e pelo Instituto MAPA, apresentou o seu estudo que indica uma demanda reprimida de 70%. Praticamente o mesmo resultado da outra pesquisa.

Pág. 14 e 15 do caderno com os resultados da pesquisa.
Página 15 do caderno com os resultados do estudo feito pelo Instituto MAPA e RBS.

Mas ATENÇÃO! Isto não quer dizer que 3/4 da população vai virar ciclista e nunca mais usar o carro nem o ônibus, e muito menos que a temida “ditadura dos cicloativistas” será implantada. O que estes números nos dizem é simplesmente que todas estas pessoas passariam a considerar a bicicleta como uma opção de transporte mais próxima de suas capacidades e realidade. Essas pessoas passariam a usar a bicicleta pelo menos de vez em quando, em alguns de seus deslocamentos rotineiros, dispensado os veículos motorizados em diversas ocasiões.

Já pensou como seria circular por toda a cidade assim?
Já pensou como seria circular por toda a cidade assim? (Imagem: UFSC)

É fácil notar que em Florianópolis o número de pessoas pedalando nas ruas têm aumentado consideravelmente nos últimos tempos, mesmo sem políticas públicas realmente voltadas para o uso da bicicleta. Vemos uma e outra ciclovia ser debatida, isoladamente, mas nenhum avanço na criação de uma rede cicloviária que realmente tornaria o uso da bicicleta convidativo. Atualmente a porcentagem de ciclistas nas ruas é de menos de 10% (vide resultados das pesquisas divulgadas acima). Se chegarmos a um nível estável de 20%, já teríamos uma cidade completamente diferente. Grandes cidades conhecidas pelo uso da bicicleta têm seus indices em torno de 30% do total de deslocamentos diários, com cerca de 50% da população utilizando a bicicleta pelo menos uma vez por semana. [veja o Copenhaguize Index]

Projeto de rede cicloviária do centro de Florianópolis. Praticamente nada saiu do papel nos últimos 10 anos, e o que saiu tem qualidade questionável.
Projeto de rede cicloviária do centro de Florianópolis. Praticamente nada saiu do papel nos últimos 10 anos, e o que saiu tem qualidade questionável. (Imagem: IPUF)

A criação de mais estruturas cicloviárias também leva a outro fenômeno: menos ciclistas infratores. Em nossas cidades atuais encontramos ciclistas na contramão, na calçada, em rodovias, em avenidas, e em diversos locais onde muitas vezes se questiona os motivos que levaram o cidadão a se colocar naquela situação. Acontece que, na falta de estrutura e orientação adequada para quem usa a bicleta nos centros urbanos, a maioria se utiliza do improviso. Este artigo fala bem sobre o assunto.

Não podemos deixar de considerar a qualidade dos projetos e das obras das novas ciclovias que surgirão pela cidade. Afinal, não basta fazer uma gambiarra e chamar de ciclovia, como já vimos em muitos lugares. Quando fazem assim, é muito fácil dizer que “não adiantou nada porque ninguém pedala aqui”. É necessário que o projeto leve em consideração a experiência de quem vai pedalar, coisa que pelo visto é ignorada por nossos engenheiros e arquitetos até agora. Farei outro post apenas sobre este assunto.

Portal de teletransporte da ciclofaixa da SC-401. (Imagem: Bicicletada Floripa)
Portal de teletransporte da ciclofaixa da SC-401. (Imagem: Bicicletada Floripa)

CONCLUSÃO

A criação e expansão das estruturas cicloviárias em Florianópolis, e em qualquer cidade, visam não apenas satisfazer uma demanda “dos ciclistas”, mas sim promover o uso da bicicleta para aqueles que hoje não a utilizam exatamente pela falta de estrutura. Podemos citar o caso recente de São Paulo, onde houve um esforço imenso para construir centenas de quilômetros de ciclovias e ciclofaixas em grande escala, formando uma rede, e o resultado é que em alguns lugares houve um aumento de 400% na quantidade de ciclistas na rua.

Portanto, mesmo que você só ande de carro e não pretenda jamais usar a bicicleta, deveria ser a favor de mais ciclovias, pois não só os ciclistas vão parar de te “incomodar” na rua como também outros motoristas vão deixar de trancar o seu caminho.