Polícia Militar e Diário Catarinense cometem grave erro contra o uso da bicicleta

O jornal Diário Catarinense publicou uma reportagem especial sobre ciclistas na sua edição de sábado, 08 de abril de 2017.

Com o título “Ciclista Invisível”, a reportagem aborda a situação complicada do uso da bicicleta em Santa Catarina, em especial nas rodovias estaduais e federais. A maior parte do conteúdo é razoavelmente sensato, considerando a limitação da linha editorial da empresa. A reportagem fala, por exemplo, sobre a tentativa frustrada dos cicloativistas de conseguir estabelecer um contato direto com o governo estadual, prefeituras municipais e órgãos responsáveis pelo planejamento viário das cidades e estradas. Também dá alguns exemplos de ciclistas que foram atropelados, denuncia a atitude de alguns dos motoristas responsáveis por estes casos, fala sobre ações cidadãs voluntárias de produção e instalação de placas de sinalização referente ao uso da bicicleta, cita algumas opiniões de cicloativistas, enfim, fala sobre um pouco de tudo.

O vídeo que acompanha a versão online exibe depoimentos de vítimas e familiares de vítimas de atropelamentos, dando uma certa ênfase no fato de que em todos os casos mostrados mostrados os atropelamentos ocorreram por conta da imprudência dos motoristas/motociclistas envolvidos. Você pode conferir a versão online AQUI.

Até este ponto a reportagem se mostra esclarecedora, e inclusive a favor dos ciclistas.

No entanto, no último trecho está a opinião do tenente-coronel Fábio Martins, da Polícia Militar Rodoviária. Ele comenta sobre a ausência de estrutura das rodovias, dá algumas dicas para aumentar a visibilidade e segurança dos ciclistas nas estradas, e recomenda que ciclistas evitem pedalar em locais considerados perigosos.

Ainda que esta última opinião seja citada apenas uma vez, em um dos últimos parágrafos da reportagem, o Diário Catarinense escolheu colocar ela em destaque na capa do jornal com um título um pouco diferente. Ficou assim:

“Invisíveis no trânsito. Número de mortes nas rodovias estaduais e federais leva as polícias a recomendar que ciclistas evitem utilizar SCs e BRs.”

Por que isso é um erro grave?

A capa de um jornal não é um acaso que surge de acordo com os fatos acontecidos e noticiados, e sim é uma das decisões mais importantes e difíceis que a empresa tem que fazer todos os dias. Quando se trata de uma edição de final de semana que contempla uma reportagem especial que foi trabalhada e desenvolvida por semanas que antecederam a publicação, se trata de uma das capas mais importantes de todo o ano. Ou seja, cada palavra e detalhe desta capa foi assunto de debate em reuniões, envolveu muitas pessoas, passou por muitas revisões e modificações até chegar na versão final.

Considere que a maioria das pessoas vê apenas a capa dos jornais, mas não lê o conteúdo interno. Isso acontece porque a maioria apenas olha para a capa por alguns segundos enquanto está na fila do supermercado, caminha em frente a uma banca de revistas, ou qualquer outra situação cotidiana. A tendência é que estas pessoas não vão se aprofundar no assunto, exceto talvez os próprios cicloativistas.

Considere também que o Diário Catarinense é, de longe, o jornal com maior circulação no estado, com o maior número de exemplares e pontos de venda, provavelmente presente em todas as cidades de Santa Catarina e também em alguns locais de outros estados.

Ao destacar que a polícia recomenda que ciclistas não devem pedalar em rodovias, numa capa impactante e com poucas informações, o jornal induz a opinião pública de forma poderosa e direta. É o tipo de ação que faz com que muita gente desista de pedalar, ou seja impedida por amigos e familiares, faz com que ciclistas sejam hostilizados nas estradas por motoristas que se colocam em posição de bem informados. “Não viu a capa do DC? Tá lá!”. Só quem pedala sabe como isso é comum.

Portanto este tipo de capa, com essa amplitude de alcance e este poder de influência sobre a opinião pública, faz muito mais pela ameaça aos ciclistas do que à sua proteção, mesmo com um conteúdo interno que tende para o lado dos ciclistas.

Pedalar nas rodovias é inevitável

A opinião do tenente-coronel Fábio Martins é pertinente quando se trata de pessoas que pedalam em rodovias por opção, como ciclistas que pedalam por lazer e não conhecem outros locais mais tranquilos. No entanto é uma sugestão míope se direcionada a quem pedala em estradas e rodovias por esta ser o único meio de locomoção disponível e/ou o único caminho possível.

Por exemplo, o único caminho prático de ligação entre o centro e o norte na ilha de Florianópolis, seja de bicicleta ou de carro, é através da SC-401, citada diversas vezes. As alternativas incluem morros maiores, trechos de calçamento que dificultam o deslocamento, quilômetros adicionais, ou tudo isso junto. O que faz esta rodovia ter um grande fluxo de veículos motorizados é exatamente o mesmo motivo de ter tantos ciclistas. Poderia ser mencionado também que a deficiência do transporte coletivo em Florianópolis faz o número de veículos ser ainda maior na SC-401, o que poderia ser um gancho para desenvolver um excelente complemento para o assunto. Mas a reportagem ignorou estes fatos.

Também ignorou que a ciclofaixa existente num trecho da rodovia é completamente inadequada às dimensões e velocidades praticadas no local, tanto que já houveram atropelamentos dentro da ciclofaixa. O caso mais famoso é o de Roger Bittencourt, que foi mencionado na reportagem porém com a omissão do fato de ter sido atropelado dentro da ciclofaixa.

Outro caso emblemático da SC-401 é o de Everton Luiz Machado, que utilizava a bicicleta como meio de transporte diariamente e foi atropelado por um motorista que estava embriagado e invadiu o acostamento. (leia a reportagem do próprio Diário Catarinense). O local do atropelamento é um dos pontos que não tem nenhum caminho alternativo, onde é obrigatória a passagem pela rodovia. O mesmo aconteceu com Ina Ostrom, citada na reportagem. Embora neste caso se trate de uma atleta em treinamento, que escolheu o roteiro por ser onde tradicionalmente os ciclistas e triatletas da cidade treinam, foi praticamente no mesmo local do incidente que tirou a vida de Everton.

Errar o alvo não ajuda a resolver o problema.

Além da gravidade de colocar a culpa dos atropelamentos nos próprios ciclistas, a ênfase na opinião do tenente-coronel Fábio Martins erra feio na real causa do problema ao repetir esta opinião em diversas ocasiões.

O próprio tenente-coronel também costuma mencionar que um dos maiores problemas das polícias em geral é a falta de efetivo e de estrutura de trabalho, que leva a uma precariedade na fiscalização nas estradas e rodovias. Com isso, a infração das leis de trânsito já se tornaram um costume dos motoristas brasileiros, pois a certeza da impunidade é grande. Mas se esta é uma preocupação real, o tenente-coronel deveria concentrar seus esforços (e comentários) neste assunto, e não dizendo aos ciclistas onde não devem pedalar sem oferecer qualquer solução.

Não é necessário ser nenhum radical da bicicleta para perceber que a maneira como muitos motoristas dirigem nas ruas, estradas e rodovias é completamente incompatível com a segurança de todos que utilizam estes espaços. Os incidentes que tiram a vida dos ciclistas são causados pelo mesmo conjunto de fatores da maioria dos acidentes em geral: altas velocidades, embriaguez ao volante, direção agressiva, uso do celular ao dirigir, enfim, imprudência em geral agravada pela pouca fiscalização e crença na impunidade.

Somado a isto, ainda há uma notável recusa do poder judiciário de tratar os casos de atropelamento como crimes dolosos, onde a decisão de dirigir embriagado, em alta velocidade, ou fora da pista, é equivalente à intenção de matar. Ao tratar a maioria dos casos como homicídio culposo, onde não há intenção de matar, acaba havendo uma banalização das atitudes perigosas e das vidas perdidas.

Portanto nem tudo sobre ciclistas se resolve com ciclovias. O problema das estradas se resolve em boa parte com fiscalização e punição efetiva dos motoristas infratores. Basta o devido respeito ao código de trânsito e à vida para que todos possam transitar tranquilamente onde bem entenderem. Mas as polícias não fazem (ou não conseguem fazer) a fiscalização que deveriam fazer. Quanto à busca por outros locais para pedalar, primeiro é necessário que eles existam. Mas o Governo Estadual e as prefeituras ignora as entidades cicloativistas quando estas pedem que sejam feitas melhorias para o deslocamento de bicicletas.

Do jeito que a coisa anda, falta pouco para proibirem a circulação de bicicletas em qualquer lugar, já que também é comum recomendarem que ciclistas evitem ruas e avenidas. Só vai sobrar a ciclovia da Beiramar.

E o que poderia ter sido diferente na capa do DC?

Imagine que a capa exibisse um dos seguintes destaques:

  • “Movimento cicloativista tenta dialogar com governo estadual e prefeituras, mas é ignorado há decadas.”
  • “Aumento do número de ciclistas nos últimos anos exige que as obras e projetos de estradas e rodovias sejam repensados.”
  • “Maioria dos casos de atropelamento é causado por motoristas alcoolizados e/ou em alta velocidade.”

Tudo isso também foi mencionado na reportagem, inclusive mais de uma vez. É claro que o impacto na opinião pública seria bem diferente, só resta a dúvida do por quê o DC preferiu dar o pior destaque possível.